Você conhece Ana C. ?


Dia destes, enquanto sacrificava meus poucos neurônios na escritura (?) da minha dissertação, eu pensava (!): O maior paradoxo (e isso não é uma hipérbole) que temos na vida é em relação ao conhecimento. Quanto mais lemos ou estudamos, mais ignorantes ficamos. Se deixássemos nosso conhecimento parado, estático (como muitos o fazem), não sentiríamos essa sensação de importência em relação a ser/parecer/saber… A cada nova descobeerta, vem junto aquela avalanche de pensamentos que realmente são capazes de, se não mudar, pelo menos alterar significativamente o nosso modo de pensar. E junto com a avalanche, segue um abismo: o que eu estava fazendo até agora que não tinha pensado sobre isso antes?

Ana Cristina Cesar foi uma doce descoberta recente. Um      verdadeiro mito romântico da poesia contemporânea brasileira. Dona de uma escrita refinada por ser uma leitora compulsiva, a poeta tem publicado e também em seus poemas inéditos e dispersos, uma escrita poética em prosa se utilizando do tom confessional: um quebra-cabeça deixado para a posteridade.

A vida de Ana Cristina foi como a de seus textos: curta. Interrompida aos 33 anos, sua obra é pequena, mas significativa, pois revela o olhar de uma escritora que se colocou na vanguarda de seu tempo e marcou definitivamente a moderna poesia brasileira. Através de seus textos curtos, poemas fragmentados, cartas, páginas de diário, criou um jogo com o qual a poeta brinca e celebra a vida. Ana Cristina Cesar quebrou regras, ousou além da frase, misturou sombra e luz.  Não hesitou em se apropriar da fragmentação do mundo para, em seguida, recriar a seu modo imagens que sensibilizam o leitor.  A sua consciência em misturar prosa e poesia fez com que seus poemas tenham rara qualidade.

Poema do Caderno de desenho, publicado pela Livraria Duas Cidades, em 1980:

Noite Carioca:


Diálogo de surdos, não: amistoso no frio. Atravanco na contramão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento a mulher mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum segredo. (
A teus pés – 1982)


Esvoaça… Esvoaça… “É como a vela que se apaga, E a fumaça sobe e se atenua.

É o amor fraco que se apaga,

Não adiantam poemas para a lua.
Sofre o homem, o amor acaba E a doce influência esvoaça

Como o fio adelgaçado

De fina e translúcida fumaça Esvoaça, esvoaça…

Atenua o amor, Atenua a fumaça.

Para que tanta dor? E o amor que vai sumindo,

Adelgaça, esvoaça, esvoaça… (Inéditos e Dispersos – (1963))


Lá Fora


há um amor que entra de férias. Há um embaçamento de minhas agulhas nítidas diante dessa boca bisca de mulher. Há um placar visível em altas horas, pela persiana deste hotel, fatal, que diz: fiado, só depois de amanhã e olhe lá onde a minha lâmina cortante, sofrendo de súbita cegueira noturna, pendura a conta e não corta mais, suspendendo seu pêndulo de Nietzsche ou Poe por um nada que pisca e tira folga e sai afiado para a rua como um ato falho deixando as chaves soltas em cima do balcão
. (A teus pés – 1982).

Procurei e não encontrei nenhum vídeo muito espetacular sobre Ana Cristina ou com os seus versos, mas aí vai um.

No Twitter, você pode conferir fragmentos desta poeta, seguindo o perfil

anacristina_c

E por falar em Twitter, resolvi fazer o meu  TOP FIVE, as cinco melhores mini-postagens do dia (sempre do dia anterior), será que você está aqui?

5) millorfernandes

Presidente Lula: “Em que exato momento histórico nossa ignorância passou a ser virtude cívica?” http://www2.uol.com.br/millor/index.htm about 22 hours ago via web

4) tati_bernardi

O sofrimento se conforma um pouco por dia, até virar lembrança. about 22 hours ago via web

3) gracecarioka

a professora falo que eu devia agradece muito a princeza isabel pela vida que tenho ela me confundiu e acho que eu era filha da princeza about 22 hours ago via web

2) FernandoPessoa

Boca que tens um sorriso como se fosse um florir, teus olhos cheios de riso dão-me um orvalho de rir. about 21 hours ago via web

1) monicaiozzi

“Monica, para o que você faz, tá bom!” by Marina Silva – Obrigada @silva_marina!!! about 18 hours ago via web

Sem mais, como diria Ana C., é sempre mais difícil ancorar um navio no espaço… Beijinho.

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A saudade é um filme sem cor que meu coração quer ver colorido…




8 de março, dia da mulher. Um dia muito triste. Pense em alguém da sua vida que é extremamente indispensável para você. Agora imagine que você está há dois anos sem vê-lo. E que ano que vem será três. E daqui a dez anos será doze, ou seja: você não o verá mais. É triste. É o caso onde a saudade dói, dói demais. Quando você não tem contato com a morte, você vê a vida de outra forma. Assim que ela sopra perto de você, você acorda para diversas realidades, as quais não tinha muita vontade de ver. A dor faz você crescer, te torna forte, te torna rude, te empedra. Ao encontro disto, te deixa sensível para o hoje, e se, você aprender bem com ela, você passa a dar valor a quem você tem hoje.


Desculpe mulheres, o dia de hoje não me remete, de forma alguma a nós. Há dois anos, todas as mulheres que eu mais amo, choravam muito, e tenho certeza que para elas o dia é de extremo pesar. Pesar por sermos pequenos e sofrermos tanto por algo que é inevitável. Vamos agradecer por mais um dia de vida. Por não estarmos eu termos entes queridos em leitos de hospital, dependendo de sangues, plaquetas e transplantes. Por ainda termos a chance de mudar algo ou em alguma coisa. Vamos orar e elevar o nosso pensamento a Deus. Que assim seja.

Grande Pátria Desimportante, Eu Não Vou Te Trair!


Ser brasileiro é mais que uma benção. É um dom. Chega a ser um carma.
Estou tendo a oportunidade de refletir sobre isso e desabafo: é incrível como nos deixamos contagiar pelo jeitinho brasileiro.
O Brasil só não é democrático em suas políticas públicas, infelizmente. Aqui tem lugar para todas as tribos, guetos, parcerias e combinados. Os braços do Brasil são os maiores do mundo. Temos belezas naturais, como a mulher-melancia e os laranjas que atravessam clandestinamente a Ponte da Amizade todos os dias. Temos o Cinema Novo, a Pornochanchada, o samba de raíz e o de gafieira. Temos ainda o bom ritmo do funk com suas desprezíveis letras, e as belíssimas composições da MPB em pobres remixagens. O Brasil é um país onde o ilícito se tornou natural e tolerado e o sorriso das nossas crianças estão forçados e reprimidos. O luxo e o lixo se confundem e se resignificam o tempo todo.
É um país de contrastes: da seca do Nordeste e das cheias no sul. Aboliu a escravatura em 1888 e hoje continua escravizando através da educação, que deveria ser libertadora. Tem praia, tem mato. Tem terra, tem asfalto. Tem sem-terra. Tem circo, tem palhaço. Tem picadeiro. Tem povo. Tem espetáculo!
Mas ainda é o jeitinho brasileiro que mais me incomoda aqui. É um jeitinho de ser solidário em enchentes e que depois desrespeita o idoso na fila dobanco, no ônibus, no restaurante… Precisa de lei. De decreto para ser educado. É o jeitinho que samba junto nos quatro dias de carnaval e que depois não devolve um troco que veio errado, e quando alguém devolve o troco errado, a expressão de espanto do caixa com tamanha ‘HONESTIDADE’ é inevitável. É o grito unido e uníssono nas arquibancadas e torcidas organizadas e a pancadaria desordenada na guerra dos estádios.
É o país da coca, da cola, do açaí, do avião, da Skol, das favelas e das coberturas. É o Brasil coberto de favelas e descoberto de esperança. No país do Tente Outra Vez não existe guerra mas existe fome. Não existe terremoto mas a terra treme a cada final de campeonato. Não existem vulcões mas o coração do brasileiro desperta sempre em erupção. Não tem Pessoa, mas tem Bandeira. Tem várias bandeiras: brancas, negras, vermelhas e coloridas. Tem Ordem mas não tem Progresso. Tem esquecimento, tem perdão. E como brasileira legítima que sou, me esqueço do Brasil que não conheço, tenho vergonha e não desisto nunca. No país onde o atraso é um charme, não haveria surpresa alguma se fosse um gringo que tivesse me alertado para isso…

(…)

Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.
Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!

Mais um texto para não ser lido.



Sempre que esta janelinha se abre, me dá uma vontade louca de escrever e quase nunca tenho um motivo. Isso me dá raiva, mas, pensando bem, quem é que precisa de um motivo para escrever?
Claro que é muito mais fácil. E também é fácil sair por aí às catas de motivos. Existem infinitos. Curiosidades, notícias, programas de TV, acontecimentos, lembranças, recordações… Mas e quando você tem todo esse leque aberto e um vazio fechado dentro do peito? Por isso que inventaram a metáfora. Para se falar da mesma coisa de infinitas formas diferentes. E para se ler essa coisa de mais outras infinitas formas. A linguagem é engraçada. Todos nós estamos participando dos seus jogos sem percebermos. As intenções, os gestos, as palavras duras em voz mansa, as palavras mansas em voz dura. Estamos inseridos em uma tragédia rodriguiana em três atos e nem nos damos conta disso.
Aliás, tem um poema de Paulo Leminski que, a meu ver, é espetacular e que transcrevo abaixo:

“Leite, leitura
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo,tudo,tudo
não passa de caricatura
de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura”

Paulo Leminski

E é aí que eu me encontro com minha angústia. As letras são aquele leite materno, que é vital para nós quando recém-nascidos. Sem elas não nos comunicamos. Somos mudos com voz. A leitura dessas letras nos permite uma viagem sem volta, por mares nunca d’antes navegado. Coisas acontecem. Coisas passam. Coisas passam e nos marcam de forma violenta, pois custam a sarar. Coisas acontecem em instantes e não vão embora nunca. E não adianta. A vida segue. Não há remédio para certas dores. Não há formol para coisas vivas. O desapego do apego dói. E o que é nosso tormento, de repente passa a ser o nosso alívio. É a amargura da necessidade de escrever algo que não se materializa de forma alguma, mas o acalento de poder escrever, nem que seja uma metáfora: ‘Meu pensamento é um rio subterrâneo.’ (Pessoa na minha Pessoa).

Tristeza não tem fim…


Sou uma menina de sorte. Quando estou quase entregando os pontos sempre encontro um refúgio, um acalento. Acordei muito mal hoje por ter dormido mal. E dormi mal porque cansei. Ganância, egoísmo e competição acabam comigo. E como sou uma pessoa que tenho antecedentes depressivos, me cuido ao máximo para não me abalar porque quando me abalo tudo vêm à tona novamente.
Choveu. Fui para a chuva para lavar a alma. As lágrimas desaparecem na chuva. A força desaparece nas lágrimas. Não é possível viver uma meia vida. A quem eu quero enganar? Enquanto as pessoas sambam e bebem, existem milhares de crianças no hospital fazendo quimioterapia e esperando sangue ou um transplante de medula. Lembro do meu sofrimento ao pensar na família dessas crianças. E ao lembrar do meu sofrimento eu me recordo que também sou uma pessoa que sente dor. Por que eu sou compreesnsiva com a dor dos outros se a minha dor sempre é pisada e passada por cima?
A escuridão já vinha tomando conta de mim novamente quando, de repente encontro uma leitura para me distrair. Era uma repotagem sobre o Nietzsche. Sobre a pessoa Nietzsche.
Era ele me dizendo que não devemos agir como coveiros do presente. Que devemos conhecer a nossa capacidade de crescer por nós mesmos, assimilar o passado, cicatrizar as feridas, preparar perdas e reconstruir as formas destruídas. Por isso sou uma pessoa de sorte. Ninguém me disse antes que deveríamos preparar as nossas perdas, por isso sofro hoje, mas sei que de alguma forma sempre haverá aquele fiozinho de luz soprando ao meu ouvido e me mostrando a mola no fundo do meu poço.

Somos o que nos permitiram ser…


Nós somos o que nos permitiram ser. Nas minhas viagens diárias eu penso: eu poderia agora estar em um baile funk dançando o créu na velocidade cinco e ser a pessoa mais feliz do mundo. Ou quem sabe eu poderia não ter lido nada de nada e ter me contentado em apenas assistir filmes toscos e programas de televisão subproduzidos e estar completamente completa. Eu poderia me satisfazer em estar sentada em uma poltrona num dia de domingo. Será que eu seria feliz? Até onde a minha felicidade é feliz? Até onde eu me satisfaço? O que eu ainda não provei e que me faz tanta falta? Tudo isso porque acabo de ler Drummond. Eu realmente sinto muito pelas pessoas que não lêem Drummond. É como ser um anjo de uma asa só. É como ter um belo par de olhos azuis e só enxergar a escuridão. É como ter os anéis dos mais valiosos quilates e não ter dedos para distribui-los. O Drummond se apresentou a mim em mais uma aula chata de Língua Portuguesa onde, para espantar meu tédio, eu lia a apostila enquanto a professora falava, falava e falava… O tédio era tanto que nem passar bilhetinhos para as amigas me animava. Lembro-me até hoje dos quadros cor de rosa broxantes onde as letras estavam impressas. Ela falava sobre o Modernismo. Contava coisas que eu não conseguia visualizar. Eu sempre tive problemas com a arte. Preciso ser chacoalhada para conseguir senti-la, mas quando sinto é profundamente.E era a Semana da Arte Moderna em questão. Enquanto ela falava eu passava o olho nos poetas do tal movimento. O primeiro já me chamou a atenção pois falava de sapos, de um porquinho-da-índia, de balões na rua de sabão. Aquela simplicidade provocativa eu estava conseguindo visualizar. E de repente eu comecei a achar aquilo tudo engraçado. Simples. Nada de confetes, mas ao mesmo tempo muito raso, largo e profundo. Levo um susto! A professora: Fabiana, lê pra gente o poema da página tal. Putz -pensei eu – [Tomara que seja a outra Fabiana. Mas não, era a Carneiro mesmo. Quem manda ser tão faladeira, mas porque eu se eu não fiz nada hoje? Lá vou eu…] O poema era de um moço chamado Carlos. Gostei. Não eram apenas os sapos e balões que eram acessíveis nesse movimento. Os nomes também eram palpáveis, até porque eu já tinha lido alguma coisa do tal Manuel. Comecei: No meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho. (Essa professora está de sacanagem comigo!). Tinha uma pedra. No meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei deste acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. (Nossa, que jeito lindo de se dizer vista cansada.) Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho. (Essa professora deve ser a pedra no meu caminho.)No meio do caminho tinha uma pedra. Depois de terminada a minha bela leitura, a professora falou mais um pouco. Falou da colocação gramatical errônea e proposital. Etecétera e tal. Lembro-me pouco, pois corri ler na apostila o que mais tinha desse tal Carlos vírgula, Zé graça. Lembro que li o poema de sete faces, mãos dadas e os ombros suportam o mundo. Bateu o sinal e corri para a biblioteca. E como disse no início, somos o que nos permitiram ser e graças a meu pai e mãe, na biblioteca do colégio que pagavam para mim tinha As Impurezas do Branco, Carlos Drummond de Andrade. As impurezas do branco. A professora de artes precisava saber disso. E aí foi um devorar de poemas que dura até hoje. Li Drummond com a inocência de uma adolescente. Depois li Drummond com o olhar imparcial de uma estudante de Letras. Hoje leio Drummond com uma linha que oscila entre o gozo e o exame. Com meu primeiro emprego de verdade pude comprar a sua obra completa em vários volumes em capa dura e letras douradas. Conheci as crônicas. Não consigo conceber alguém que não sentiu o prazer em ler Drummond. A graça que desgraçou tantas vezes o meu coração. A secura que molhou tantas vezes a minha alma fria. A dor que alegrou dias difíceis e me embalou como aconchegante canção de ninar. Hoje o Modernismo está fora de moda, mas mesmo assim e apesar de dar aulas de inglês, sempre cito alguns versos em horas apropriadas, em cadernos de recordação, em bate-papos na hora do recreio. E a cada (re)leitura eu me renovo. Talvez porque refaço toda essa viagem que acabo de contar aqui, muito singelamente. Volto aos meus quinze anos e não lembro o que me fazia feliz no ensino fundamental, além da bruxa Onilda, do menino do dedo verde, do pequeno príncipe e de um livro chamado: Fabiana na floresta, o qual tinha meu nome umas dezessete vezes na ficha de empréstimo. Lembro que eu mergulhava em análises sintáticas que uma professora apaixonada me fez apaixonar. Era como se eu estivesse resolvendo a equação mais difícil do mundo e eu sabia a solução. Pedro é feliz com seus dois cachorros cinza. Sujeito simples. Oração absoluta. Mas essa outra paixão eu deixo para outra hora. Ofereço a você que até aqui leu, um poema do Drummond. Fantástico. Espero que você coma a carne, roa o osso e lamba os beiços. E seja feliz! Não é o créu mas precisa ter disposição e habilidade. Hahaha. Afinal é muito mais que apenas cinco velocidades.

Nosso Tempo

Carlos Drummond de Andrade

I

Este é tempo de partido,

tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,

viajamos e nos colorimos.

A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.

Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.

As leis não bastam. Os lírios não nascem

da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.

Onde te ocultas, precária síntese,

penhor de meu sono, luz

dormindo acesa na varanda?

Miúdas certezas de empréstimo, nenhum beijo

sobe ao ombro para contar-me

a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.

As coisas talvez melhorem.

São tão fortes as coisas!

Mas eu não sou as coisas e me revolto.

Tenho palavras em mim buscando canal,

são roucas e duras,

irritadas, enérgicas,

comprimidas há tanto tempo,

perderam o sentido, apenas querem explodir.

II

Este é tempo de divisas,

tempo de gente cortada.

De mãos viajando sem braços,

obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.

E o vestido vermelho

Vermelho

cobre a nudez do amor,

ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.

Guerra, verdade, flores?

Dos laboratórios platônicos mobilizados

vem um sopro que cresta as faces

e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina

o sucedâneo da estrela nas mãos.

Certas partes de nós como brilham! São unhas,

anéis, pérolas, cigarros, lanternas,

são partes mais íntimas,

a pulsação, o ofego,

e o ar da noite é o estritamente necessário

para continuar, e continuamos.

III

E continuamos. É tempo de muletas.

Tempo de mortos faladores

e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,

mas ainda é tempo de viver e contar.

Certas histórias não se perderam.

Conheço bem esta casa,

pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,

a sala grande conduz a quartos terríveis,

como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,

conduz à copa de frutas ácidas,

ao claro jardim central, à água

que goteja e segreda

o incesto, a bênção, a partida,

conduz às celas fechadas, que contêm:

papéis?

crimes?

moedas?

o conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiador urbano,

ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,

moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,

pessoas e coisas enigmáticas, contai,

capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;

velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;

ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da costureira, luto no braço, pombas, cães errântes, animais caçados, contai.

Tudo tão difícil depois que vos calastes…

E muitos de vós nunca se abriram.

IV

É tempo de meio silêncio,

de boca gelada e murmúrio,

palavra indireta, aviso

na esquina. Tempo de cinco sentidos

num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,

de céu neutro, política

na maçã, no santo, no gozo,

amor e desamor, cólera

branda, gim com água tônica,

olhos pintados,

dentes de vidro,

grotesca língua torcida.

A isso chamamos: balanço.

No beco,

apenas um muro,

sobre ele a polícia.

No céu da propaganda

aves anunciam

a glória.

No quarto,

irrisão e três colarinhos sujos.

V

Escuta a hora formidável do almoço

na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.

As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.

Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!

Os subterrâneos da tome choram caldo de sopa,

olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.

Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,

mais tarde será o de amor.

Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.

O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.

Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.

Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,

vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,

toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.

Homem depois de homem, mulher, criança, homem,

roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,

homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem

imaginam esperar qualquer coisa,

e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,

últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,

já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.

Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,

o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,

com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,

escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,

errar em objetos remotos e, sob eles soterrado sem dor,

confiar-se ao que-bem-me-importa

do sono.

Escuta o horrível emprego do dia

em todos os países de fala humana,

a falsificação das palavras pingando nos jornais,

o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,

os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,

a constelação das formigas e usurários,

a má poesia, o mau romance,

os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,

o homem feio, de mortal feiúra,

passeando de bote

num sinistro crepúsculo de sábado.

VI

Nos porões da família,

orquídeas e opções

de compra e desquite.

A gravidez elétrica

já não traz delíquios.

Crianças alérgicas

trocam-se; reformam-se.

Há uma implacável

guerra às baratas.

Contam-se histórias

por correspondência.

A mesa reúne

um copo, uma faca,

e a cama devora

tua solidão.

Salva-se a honra

e a herança do gado.

VII

Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos

para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,

dores de classe, de sangrenta fúria

e plácido rosto. E há. mínimos

bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,

lesões que nenhum governo autoriza,

não obstante doem,

melancolias insubornáveis,

ira, reprovação, desgosto

desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.

Há o pranto no teatro,

no palco? no público? nas poltronas?

há sobretudo o pranto no teatro,

já tarde, já confuso,

ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,

vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,

vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,

e secar ao sol, em poça amarga.

E dentro do pranto minha face trocista,

meu olho que ri e despreza,

minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,

que polui a essência mesma dos diamantes.

VIII

O poeta

declina de toda responsabilidade

na marcha do mundo capitalista

e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas

promete ajudar

a destruí-lo

como uma pedreira, uma floresta,

um verme.