Somos o que nos permitiram ser…

Nós somos o que nos permitiram ser. Nas minhas viagens diárias eu penso: eu poderia agora estar em um baile funk dançando o créu na velocidade cinco e ser a pessoa mais feliz do mundo. Ou quem sabe eu poderia não ter lido nada de nada e ter me contentado em apenas assistir filmes toscos e programas de televisão subproduzidos e estar completamente completa. Eu poderia me satisfazer em estar sentada em uma poltrona num dia de domingo. Será que eu seria feliz? Até onde a minha felicidade é feliz? Até onde eu me satisfaço? O que eu ainda não provei e que me faz tanta falta? Tudo isso porque acabo de ler Drummond. Eu realmente sinto muito pelas pessoas que não lêem Drummond. É como ser um anjo de uma asa só. É como ter um belo par de olhos azuis e só enxergar a escuridão. É como ter os anéis dos mais valiosos quilates e não ter dedos para distribui-los. O Drummond se apresentou a mim em mais uma aula chata de Língua Portuguesa onde, para espantar meu tédio, eu lia a apostila enquanto a professora falava, falava e falava… O tédio era tanto que nem passar bilhetinhos para as amigas me animava. Lembro-me até hoje dos quadros cor de rosa broxantes onde as letras estavam impressas. Ela falava sobre o Modernismo. Contava coisas que eu não conseguia visualizar. Eu sempre tive problemas com a arte. Preciso ser chacoalhada para conseguir senti-la, mas quando sinto é profundamente.E era a Semana da Arte Moderna em questão. Enquanto ela falava eu passava o olho nos poetas do tal movimento. O primeiro já me chamou a atenção pois falava de sapos, de um porquinho-da-índia, de balões na rua de sabão. Aquela simplicidade provocativa eu estava conseguindo visualizar. E de repente eu comecei a achar aquilo tudo engraçado. Simples. Nada de confetes, mas ao mesmo tempo muito raso, largo e profundo. Levo um susto! A professora: Fabiana, lê pra gente o poema da página tal. Putz -pensei eu – [Tomara que seja a outra Fabiana. Mas não, era a Carneiro mesmo. Quem manda ser tão faladeira, mas porque eu se eu não fiz nada hoje? Lá vou eu…] O poema era de um moço chamado Carlos. Gostei. Não eram apenas os sapos e balões que eram acessíveis nesse movimento. Os nomes também eram palpáveis, até porque eu já tinha lido alguma coisa do tal Manuel. Comecei: No meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho. (Essa professora está de sacanagem comigo!). Tinha uma pedra. No meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei deste acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. (Nossa, que jeito lindo de se dizer vista cansada.) Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho. (Essa professora deve ser a pedra no meu caminho.)No meio do caminho tinha uma pedra. Depois de terminada a minha bela leitura, a professora falou mais um pouco. Falou da colocação gramatical errônea e proposital. Etecétera e tal. Lembro-me pouco, pois corri ler na apostila o que mais tinha desse tal Carlos vírgula, Zé graça. Lembro que li o poema de sete faces, mãos dadas e os ombros suportam o mundo. Bateu o sinal e corri para a biblioteca. E como disse no início, somos o que nos permitiram ser e graças a meu pai e mãe, na biblioteca do colégio que pagavam para mim tinha As Impurezas do Branco, Carlos Drummond de Andrade. As impurezas do branco. A professora de artes precisava saber disso. E aí foi um devorar de poemas que dura até hoje. Li Drummond com a inocência de uma adolescente. Depois li Drummond com o olhar imparcial de uma estudante de Letras. Hoje leio Drummond com uma linha que oscila entre o gozo e o exame. Com meu primeiro emprego de verdade pude comprar a sua obra completa em vários volumes em capa dura e letras douradas. Conheci as crônicas. Não consigo conceber alguém que não sentiu o prazer em ler Drummond. A graça que desgraçou tantas vezes o meu coração. A secura que molhou tantas vezes a minha alma fria. A dor que alegrou dias difíceis e me embalou como aconchegante canção de ninar. Hoje o Modernismo está fora de moda, mas mesmo assim e apesar de dar aulas de inglês, sempre cito alguns versos em horas apropriadas, em cadernos de recordação, em bate-papos na hora do recreio. E a cada (re)leitura eu me renovo. Talvez porque refaço toda essa viagem que acabo de contar aqui, muito singelamente. Volto aos meus quinze anos e não lembro o que me fazia feliz no ensino fundamental, além da bruxa Onilda, do menino do dedo verde, do pequeno príncipe e de um livro chamado: Fabiana na floresta, o qual tinha meu nome umas dezessete vezes na ficha de empréstimo. Lembro que eu mergulhava em análises sintáticas que uma professora apaixonada me fez apaixonar. Era como se eu estivesse resolvendo a equação mais difícil do mundo e eu sabia a solução. Pedro é feliz com seus dois cachorros cinza. Sujeito simples. Oração absoluta. Mas essa outra paixão eu deixo para outra hora. Ofereço a você que até aqui leu, um poema do Drummond. Fantástico. Espero que você coma a carne, roa o osso e lamba os beiços. E seja feliz! Não é o créu mas precisa ter disposição e habilidade. Hahaha. Afinal é muito mais que apenas cinco velocidades.

Nosso Tempo

Carlos Drummond de Andrade

I

Este é tempo de partido,

tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,

viajamos e nos colorimos.

A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.

Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.

As leis não bastam. Os lírios não nascem

da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.

Onde te ocultas, precária síntese,

penhor de meu sono, luz

dormindo acesa na varanda?

Miúdas certezas de empréstimo, nenhum beijo

sobe ao ombro para contar-me

a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.

As coisas talvez melhorem.

São tão fortes as coisas!

Mas eu não sou as coisas e me revolto.

Tenho palavras em mim buscando canal,

são roucas e duras,

irritadas, enérgicas,

comprimidas há tanto tempo,

perderam o sentido, apenas querem explodir.

II

Este é tempo de divisas,

tempo de gente cortada.

De mãos viajando sem braços,

obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.

E o vestido vermelho

Vermelho

cobre a nudez do amor,

ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.

Guerra, verdade, flores?

Dos laboratórios platônicos mobilizados

vem um sopro que cresta as faces

e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina

o sucedâneo da estrela nas mãos.

Certas partes de nós como brilham! São unhas,

anéis, pérolas, cigarros, lanternas,

são partes mais íntimas,

a pulsação, o ofego,

e o ar da noite é o estritamente necessário

para continuar, e continuamos.

III

E continuamos. É tempo de muletas.

Tempo de mortos faladores

e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,

mas ainda é tempo de viver e contar.

Certas histórias não se perderam.

Conheço bem esta casa,

pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,

a sala grande conduz a quartos terríveis,

como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,

conduz à copa de frutas ácidas,

ao claro jardim central, à água

que goteja e segreda

o incesto, a bênção, a partida,

conduz às celas fechadas, que contêm:

papéis?

crimes?

moedas?

o conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiador urbano,

ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,

moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,

pessoas e coisas enigmáticas, contai,

capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;

velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;

ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da costureira, luto no braço, pombas, cães errântes, animais caçados, contai.

Tudo tão difícil depois que vos calastes…

E muitos de vós nunca se abriram.

IV

É tempo de meio silêncio,

de boca gelada e murmúrio,

palavra indireta, aviso

na esquina. Tempo de cinco sentidos

num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,

de céu neutro, política

na maçã, no santo, no gozo,

amor e desamor, cólera

branda, gim com água tônica,

olhos pintados,

dentes de vidro,

grotesca língua torcida.

A isso chamamos: balanço.

No beco,

apenas um muro,

sobre ele a polícia.

No céu da propaganda

aves anunciam

a glória.

No quarto,

irrisão e três colarinhos sujos.

V

Escuta a hora formidável do almoço

na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.

As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.

Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!

Os subterrâneos da tome choram caldo de sopa,

olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.

Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,

mais tarde será o de amor.

Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.

O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.

Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.

Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,

vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,

toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.

Homem depois de homem, mulher, criança, homem,

roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,

homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem

imaginam esperar qualquer coisa,

e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,

últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,

já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.

Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,

o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,

com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,

escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,

errar em objetos remotos e, sob eles soterrado sem dor,

confiar-se ao que-bem-me-importa

do sono.

Escuta o horrível emprego do dia

em todos os países de fala humana,

a falsificação das palavras pingando nos jornais,

o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,

os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,

a constelação das formigas e usurários,

a má poesia, o mau romance,

os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,

o homem feio, de mortal feiúra,

passeando de bote

num sinistro crepúsculo de sábado.

VI

Nos porões da família,

orquídeas e opções

de compra e desquite.

A gravidez elétrica

já não traz delíquios.

Crianças alérgicas

trocam-se; reformam-se.

Há uma implacável

guerra às baratas.

Contam-se histórias

por correspondência.

A mesa reúne

um copo, uma faca,

e a cama devora

tua solidão.

Salva-se a honra

e a herança do gado.

VII

Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos

para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,

dores de classe, de sangrenta fúria

e plácido rosto. E há. mínimos

bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,

lesões que nenhum governo autoriza,

não obstante doem,

melancolias insubornáveis,

ira, reprovação, desgosto

desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.

Há o pranto no teatro,

no palco? no público? nas poltronas?

há sobretudo o pranto no teatro,

já tarde, já confuso,

ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,

vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,

vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,

e secar ao sol, em poça amarga.

E dentro do pranto minha face trocista,

meu olho que ri e despreza,

minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,

que polui a essência mesma dos diamantes.

VIII

O poeta

declina de toda responsabilidade

na marcha do mundo capitalista

e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas

promete ajudar

a destruí-lo

como uma pedreira, uma floresta,

um verme.

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3 comentários sobre “Somos o que nos permitiram ser…

  1. oi Fabiana… muito lindo seu relato, com toda pureza que é uma constante em seu blog… e o poema… lindo, encantador e enigmático, assim como essa manhã de segunda feira.Beijos, boa semana pra ti.

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