Amor para recomeçar


Ainda bem que eu não te amo. Só assim posso escrever um pouquinho sobre você. Cá estou eu sentindo a tua falta. Te procurando. Procurando me irritar com alguma coisa que você faça. Porque sempre haverá algo em você que me irritará profundamente. E desta vez foi a falta dos teus pés se mexendo na cama, até o sono te pegar de vez. Ainda bem que eu não te amo! Como seria possível amar alguém tão diferente de mim? Já nem me arrisco a fazer essa pergunta para as (poucas) amigas mais íntimas por dois motivos. Primeiro: Elas me bateriam na cara e só depois me explicariam que já estão de útero cheio desse assunto. Segundo: Nada mais que eu argumente as fará mudar a opinião de que essa história acabará em um lindo dia de domingo, com os cachorros lambendo as crianças e a caipirinha correndo a solta à espera do almoço. Ufa! Ainda bem que não te amo! Eu digo a elas: é impossível! E elas: Tá bom! Não é feito pra dar certo. O teu amor é uma loucura que a minha vaidade quer. Olhos claros, rosto meigo, corpo em forma, voz doce, sorriso arrasador. Bonitão, engraçado e safado. Todas se apaixonam. Ele que finge que não vê. Que mulher não se apaixonaria por ele? Eu. Eu não me apaixono mais por ele. O que significa que agora podemos nos relacionar. O que significa que agora posso sentar tranquilamente na pizzaria e pedir minha coca-cola sem me importar com o seu olhar de desaprovação dizendo que-engorda-e-faz-mal-e-etc-e-tal e ter que engolir a seco o seu suco-natural-da-fruta-mais-excêntrica-que-vocês-tiverem-sr.garçom. Em outros tempos eu tomaria um suco natural de laranja sem gelo e com sabor azedo e depois me jogaria no chão chorando querendo entender porque ele não entende que eu adoro suco, mas naquele exato momento gostaria de tomar coca. Significa que agora posso abandonar tranqüilamente (sem abandonar o trema!) aquele romance insuportável-mas-que-tenho-que-ler e me afogar nas poesias do Gullar, Bandeira e Drummond sem culpa e sem pensar que ele pode pensar que eu sou uma Letrada de Fachada. Teria morrido, ou melhor: o matado. Não suporto olhares de reprovação. O que significa que posso estar ao lado dele sem odiar o meu cabelo, a minha bunda e a minha loucura. Significa que agora posso me levantar da mesa sem ter ajudar na louça, virar para trás e dizer: Tchau, estou indo para casa. Até. E subir na moto. Mais que isso, subir o morro que separa nossas casas. Mais ainda. Sentir subir em mim o orgulho em saber que eu consegui dormir sozinha na minha casa, na nossa cama e com gostinho de adeus mais um ser humano do planeta Terra, estou indo. E o que escuto antes de sair: “-Vamos fazer algo amanhã?”. A frase que eu temia. Que eu sempre esperava quando estava apaixonada. E que nunca vinha. Eu sabia. Uma mulher feliz e equilibrada deixa saudades. O que não dá certo é se apaixonar.
Mas hoje, passado tudo. Dor, raiva, choro, arrependimento, desarrependimento, pessoas novas, possibilidades novas, saudade, indecisão, rejeição, apelo, indiferença, diferença, indecisão, pele, saliva, ódio, gosto, desgosto, contragosto, liberdade, prisão, sossego e desassossego, culpa e desculpas, não vou mais fazer e tornarei a fazer sim, me pego pensando: Que graça tem fazer qualquer coisa sem estar apaixonada? Ô merda! E já sinto a sua falta, e já arrumei o meu cabelo, e já me preocupo com a minha bunda pequena! Mesmo sabendo que você vai olhar a bunda delas, des-girar disfarçadamente e me abraçar me perguntando qualquer coisa que eu adoraria te responder. É assim que você me pega. Mas você sabe como eu te pego?

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