E por falar em gavetas…


Ontem fui gastar um tempinho no shopping. Não que este tempo estivesse sobrando, mas fui. Foi estranho. Quando me dei conta, percebi que o Shopping Beira- Mar já está pronto para receber o Natal. O papai-noel já estava lá, colocando as suas criancinhas no colo e tirando fotos… As árvores de Natal já estavam lá, devidamente e impecavelmente enfeitadas… O coral natalino já estava a postos para mais uma apresentação. E toda aquela cena se repetindo foi me provocando um mal-estar sufocante. De repente meus passos estavam sendo seguidos por uma solidão única. De repente todas aquelas pessoas que estavam no shopping usufruindo dos enfeites e do comércio natalino passaram a ser seres tristes. Aquela alegria estampada em seus rostos não me iludia mais. Elas estavam presas. Presas em sua mesmice.

Para fugir daquilo tudo que me causava náuseas, comecei a entrar nas lojas. Uma roupa aqui, um sapato ali e eu estava sendo seguida por uma solidão constante. Como pode objetos, lugares, símbolos, formas, enfim, coisas, nos ligarem tanto às pessoas? O que eu sentia ao andar pelo shopping eram lembranças de uma pessoa só. Uma pessoa que talvez nem tenha andado tanto naquele shopping comigo, mas que cuja memória me remetia a tudo que via… Até onde vai a linha invisível que nos liga às pessoas que amamos? E essas recordações? ‘Quando não se tem mais nada, não se perde nada…’ Até onde chega o egoísmo do nosso amor? Nunca mais ter alguém é o preço que se paga para esse alguém não ser de mais ninguém? É o que a vida nos cobra para que ninguém e nada mais possa causar sofrimento a quem amamos?

Retomei minha caminhada. Procurei chocolates light nas mesmas gavetas de sempre, mas não estavam mais lá. A frustração de se vasculhar uma mesma gaveta com outros produtos é intensa, e eu me perguntava: cadê?? Será que só eu preciso de chocolate light por aqui?
Apressei meu passo e passei a perceber os passos das outras pessoas. Andares sem rumo, sapatos bonitos. Eu gostava do que via, pelo menos não precisaria compactuar com a expressão programada que se têm num shopping em época de Natal. Consideravelmente abalada com tudo o que me povoava naquele lugar, e com mais dez minutos disponível, encontrei, enfim, a livraria. E, sem apelos, ali comecei, pouco a pouco a me encontrar. Em meio a tantas cascas encontradas até então, foi ali que encontrei consolo. Milhões de histórias, milhares de títulos, centenas de livros, dezenas de sessões e poucas unidades ali dentro. Passei o olho por entre as prateleiras e a cada título surgia um conforto. As almas daquelas personagens que estavam sentadinhas assistindo o Coral do Natal e tirando foto com o papai-noel finalmente estavam libertadas dentro daquela imensidão de livros. Me vi livre também em vários deles. Estaria eu condenada a cem anos de solidão? Qual seria a minha história em meio àqueles cem melhores contos de loucura do século? Que sonho eu compraria do Vendedor de Sonhos? Minha solidão me tornaria uma vencedora? quantas doidas e quantas santas me habitam? Eles continuam entre nós? Ele continua em mim? Ele me guiava por entre aqueles livros todos? E quando eu estava quase me entregando a sessão da auto-ajuda, eis que o telefone toca! Outra gaveta se abria. A gaveta das boas lembranças ao longe e da cobrança dessas lembranças todas ao perto. Essa gaveta parece não ter fundo. É uma daquelas bem bagunçadas, mas que onde, de repente, encontramos surpreendentemente aquilo que procurávamos a tempo dentro dela… Ufa! O último título que lembro de ter lido foi: quem me roubou de mim? Ninguém me roubou de mim… nem a literatura barata de leitura fácil…
” Se uma casa é mal-assombrada, é por que o fantasma é incopetente?”
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5 comentários sobre “E por falar em gavetas…

  1. E tudo isso começo em um passeio ao shopping, rendeu um bom post… fez bem em registrar em palavras, as vezes, as sensações e e idéias vêm como uma rapidez que não dá para capturá-las… fez bem em prendê-las no texto.Abs

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